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A PANDEMIA, A CRISE CONDOMINIAL E A IMPORTÂNCIA DA ADMINISTRAÇÃO PROFISSIONAL

Aqueles que me conhecem sabem que sou advogada por formação e gestora condominial por opção.

Sempre nutri íntimo interesse pelas relações sociais e encontrei na área condominial a junção perfeita para a minha vida profissional.

Quem conhece o meu trabalho já deve ter escutado a minha filosofia:

Todo condomínio é um organismo vivo e cada condômino é uma célula. Basta apenas uma célula funcionando fora dos padrões pré-estabelecidos para que o “organismo” seja comprometido.

Com o isolamento social as pessoas estão em seus condomínios, em casa, a trabalho ou não. E por mais paradoxo que isso possa parecer, essa longa permanência incrementa o convívio social entre os condôminos dado a proximidade entre eles. Ou seja, os condomínios estão superlotados durante a maior parte do dia, um fenômeno nunca experimentado.

Os lares adotaram característica multifuncional. Tornaram-se escolas, escritórios, playground, área de lazer e até mesmo enfermarias para aqueles que estão cumprindo quarentena por recomendação médica.

Diante dessa situação os condôminos estão à prova e levados ao limite do stress, o termômetro da tolerância comunitária começa a apresentar temperaturas mais elevadas à medida que a capacidade de dialogar vai reduzindo.

Pode até ser que haja condomínios dando um verdadeiro exemplo de respeito e solidariedade, mas infelizmente essa não é a regra. Os conflitos de interesses que antes já eram difíceis de serem resolvidos pela convenção de condomínio, pelo regimento interno e pela legislação, ficam ainda mais complexos.

EM TEMPOS DE CRISE, QUAL É A DECISÃO CORRETA PARA OS SÍNDICOS CONDOMINIAIS?

A regra do direito que diz que a propriedade pode ser usada de maneira que não prejudique o direito do outro, não têm efetividade diante da crise.

Dormimos sob uma realidade condominial e acordamos em outra. Em pouco menos de um mês, áreas de lazer tiveram que ser interditadas, assembléias canceladas, mandatos venceram, bancos cancelaram acessos pelo vencimento dos mandatos, prestações de contas pendentes, condôminos “presos” em casa, a inadimplência aumentando e as contas chegando…

E as obras? O que fazer com as obras? Suspende? Autoriza? Aumenta a limpeza das áreas comuns? E quem vai pagar esse custo? E o grupo de risco? E o projeto de lei que não é votado na Câmara dos Deputados? E as festas nos finais de semana?

E como se isso fosse pouco, de repente, alguém traz a solução: ASSEMBLEIA VIRTUAL! Assembléia virtual? Mas o que é isso? Como é isso? Como fazer? Possui validade jurídica? Como controlar os votos? E os inadimplentes? Como redigir a ata? Vai ser considerada válida ou será impugnada? Condomínios precariamente organizados se vêm diante de uma realidade desafiadora.

E o resultado disso não poderia ser outro: síndicos comprometidos, perdidos em suas decisões e muitas vezes adotando medidas extremas que poderão trazer sérias conseqüências financeiras e jurídicas num futuro bem próximo.

Nunca imaginei experimentar um momento tão urgente, no qual o exercício da gestão condominial demandasse tantos conhecimentos técnicos para aplicação de medidas ajustadas à necessidade da comunidade condominial e do interesse de cada condomínio.

Atualmente, estamos passando por um marco que divide duas realidades. Aquela antes do COVID-19 e as novas diretrizes que virão após. E nesse contexto, não há a menor dúvida de que os síndicos terão que se capacitar se não quiserem passar por sérios dissabores.

O síndico profissional vem ganhando destaque no setor e alguns condomínios já identificaram a vantagem da terceirização da administração condominial. Uma dessas vantagens é a impessoalidade na tratativa das demandas diárias e a outra vantagem é a capacidade técnica para adequar os interesses comuns e individuais a uma solução eficiente. 

A atividade condominial, como sempre afirmei, é muito mais do que pagar contas e contratar um serviço de limpeza, é uma atividade que exige, além dos conhecimentos técnicos específicos, estratégia emocional para manter o relacionamento harmonioso entre condôminos. O síndico tem o dever de mostrar aos condôminos que a vida comunitária pode ser muito mais simples do que se imagina.

Estamos vivendo uma situação completamente atípica, inesperada e que vai exigir muito do seu condomínio e do seu síndico. Atitudes tomadas hoje podem trazer sérios problemas para o seu condomínio amanhã. E sabe quem vai pagar a conta: VOCÊ! E aí sou acometida por uma curiosidade: você vai esperar a próxima crise para profissionalizar a gestão do seu patrimônio?

Bruna Terra Aquino Gonçalves

Gestora Condominial com formação pelo UNISECOVI

Advogada

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